terça-feira, 5 de março de 2013
Perdida
Uma multidão gritava, só que não conseguia ouvir direito, todo som era abafado como se saísse do interior de sua mente. Sua barriga queimava e tudo girava em seu torno, era tanta dor e incompreensão, chorava mais de susto do que de outra coisa, sua visão embaçada via que alguém tentava a acudir, mas não era isso que ela queria, suplicava internamente por menos confusão, mostrava em seu rosto toda a histeria que passava por sua alma. Era mãe de três, pensou tão rapidamente nos pequenos, não sabia exatamente o porquê que sua cabeça foi pra eles, sentiu sua perna molhada, era tão quente e pensou: Ou me mijei ou menstruei, que hora mais adequada, ein?! Soltou um grito quando a levantaram, percebeu que sangrava pela barriga, percebeu tudo. Um tiro no estomago, deram-na um tiro no estomago, que deselegante, estava a morrer. Sentia o sangue abandonando seu corpo, sentia-se traída por seu fluido que fugia dela, assim do nada, como se na primeira oportunidade ele fosse pular fora, sentiu a vida indo com ele, como velhos amigos que não se largam, tinha tanto a dizer, mas nenhuma força, procurou um rosto conhecido pra se despedir, estava só, ficou mais indignada, não era hora de morrer. Escutou alguém gritar seu nome, escutou perfeitamente, sem aquele eco, foi claro, virou a cabeça e usou suas ultimas forças para sorrir, apertar os olhos e erguer as sobrancelhas, como quem diz é a vida e assim foi em paz.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Descompasso
Não negava que os dias viraram anos e não havia o reencontrado, nem mesmo no seu dia a dia memória dele vinha a sua mente, não mentiu quando disse que o amava, mas a vida segue um fluxo mais intenso que as águas de cascatas, ela leva de nós e nos cala, nos acostuma. Não era por medo ou desgosto que não se lembrava, era por descaso, vindo ao acaso. Não havia uma marcar suja de violência, ou uma interrupção externa, foi assim, foi indo e aos poucos foi. Lembrando agora aquela noite quente onde beberam tanto que dormiram rindo e tontos, no dia seguinte sabiam que se amavam.
Quando ela partiu e foi viver a vida, ele não disse adeus, nem mesmo tchau, acho que ele sentiu mais, mas também ela que partiu, com uma aflição enorme e toda coragem possível. Garota sabida sentiu no começo, mas com os dias que viraram anos teve uma vida tão repleta de vida que nada anterior parecia relevante. O tempo cura aqueles que a ele pedem auxilio, na verdade ela nem precisou pedir e a cura veio, veio por estar tranquila, que o fim é a certeza do começo e que se esvaírem com o tempo, inclusive o eu.
Um belo dia tomando um café ouviu a voz dele, soou com uma bofetada em sua cara, levantou correndo e o abraçou por trás. Ele retribuiu abraço sem olhar pra trás, eles sabiam reconhecer um ao outro com muito pouco, ela nem percebeu, mas ele chorou uma lagrima. Terminaram o café juntos, quando se despediram ela sentiu uma dor tão profunda, passou o resto dos dias lembrando dele e ele dela, mas nunca mais se viram.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Calada
Nada no seu corpo conseguia abstrair a sensação de calor, levando-a loucura da felicidade momentânea, presa num corpo espacial determinado pelas ondas da voz dele. Quanto tempo não via os tons laranja invadir de forma incomoda seus olhos, o por do sol é belo e agressivo e disso ela sabia.
Camuflada e atenta ao seu comportamento agradável e padrão, não parava de encarar Henrique, passa horas falando da vida com a cabeça nas alturas e ele participava, lembrava e sacudia-se para entender melhor. Isabel falou horas dos cabelos e a conversa foi super interessante, tão sabidos e eloquentes podiam falar de coisas melhores.
Tava lá toda serelepe, mesmo coberta pela sensação de indisposição que só quem viveu um dia de calor carioca vai entender, não sei se ele viu, não sei se reconheceu ou melhor, não reconheceu a nova criatura ali na sua frente, não era a mesma, mas falava e vivia no ritmo da outra. Era a mesma.
Como posso negar as surrealidades de uma mente inquieta que grita sem o toque de alucinógenos, saiu perplexa confusa e meio frustrada, mas em paz. Percebeu que as guerras são pedras em seu caminho de uma verdadeira felicidade, tudo tá bem, né? Sim, então pra que não manter assim, entendeu a hipocrisia fantástica de esconder os temores quando eles não geram mais nada que destruição.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Amor
Sentada na varanda ouvindo um velho vinil da Nina Simone, sentia-se tão prafrentex ao fazer isso no bairro nada glamoroso do Andaraí. Rita ouvia aquelas musicas, melancólicas e ao mesmo tempo quentes, pensando quando iria ser a sua vez. Nunca conheceu o amor, em tempos em que as paixões não chegam a conhecer a luz do sol e o ar da sobriedade, ouvir aquilo era angustiante.
Buscou em sua mente todos os homens que conhecera, na tentativa de dar a eles a chance de serem o grande amor de sua vida, mas nenhum parecia adequado, olha claramente seus defeitos e o tédio que a presença deles a causa. Levantou-se como um foguete, despiu-se e foi atrás de uma roupa linda e leve, para que pudesse fluir como o vento.
Passou pela porta de casa trancando-a rapidamente sem perda de tempo, não havia tempo a perder, sabia que nesse dia iria encontrar o amor de sua vida e caminhava sem olhar pra trás. Tinha a estratégia de encarar os homens nos olhos e ver o amor dentro deles, sabia que quando o visse não iria titubear e mais, sabia que o veria.
Começou seu plano, mas homens são ríspidos, nessa sociedade serem encarados por uma mulher os assustam e os deixam menos homens, ela via só ódio, desprezo e medo. Caminhava sem olhar pra trás já tinha passado o Estácio e ainda não tinha encontrado o amor, olhando todos os olhos em seu caminho só via coisas terríveis. Cansada, mas perseverante resolveu sentar num banco em frente ao Odeon, já eram 15 pras cinco.
Ao subir seus olhos tinha um rapaz próximo de sua idade olhando o letreiro, tirou o cabelo do rosto e olhou pra ele, ele olhou pra ela. Quando deu por si estava com o rosto a menos de 30 centímetros do rosto dele, avaliando minuciosamente os olhos dele. Ele não sabia o que fazer, por não saber a imitou e retribuiu a busca, alguns dizem que ele achou primeiro, mas ela viu, viu o amor. Beijou-o instintivamente e depois riu, ele retribuiu o riso e o beijo, como bobos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Navalha
Olhou no espelho e percebeu que não se identificava, aquelas formas não a representava, presa num corpo que não lhe cabia, levou 24 anos pra perceber que sua infelicidade era por causa disso, sou eu que não estou ali, no reflexo. Cada pulso de seu coração gritava pra partir seu algoz em mil pedaços, vergonha e angustia espalhas pela face da mulher, ela sentia-se assim, seu nome de bastimos era Pedro, como esse nome podia ser tão não representativo. Olhou pro seu corpo viu coisas que faltavam e coisas que sobravam, assim deitou no chão do banheiro e sonhou, sonhou com curvas, seios e vagina, seus cabelos seriam longos e seu rosto deveria ser felino, queria ser musa e diva.
Pobre menino, pensaram todos, depois de tão velho queria ser moça, diziam alguns, mas ela sabia que o processo demorara por temor, não por falta de certeza, mas não poderia mais nenhum dia ficar presa na sua prisão, não importam o que todos diziam a metáfora da prisão era sim algo de mais adequado pra descrever aquele corpo, aquele nome e aquela vida. Ouviu alguns por vezes a chamarem de viado, não era viado nenhum, era uma mulher, respeito ela queria.
Com a ajuda de deus e cirurgiões plásticos ela viu seu corpo mudar, viu seu membro sumir e dele nascer seus lábios, com tempo se amou, amou o outro se viu mulher, depois de muito tempo pro mundo Pedro virou Myllena. Me contaram outro dia que ela fez 29 anos, deu uma festa dançou a noite toda e que esta noiva, imagina vai casar de branco na igreja católica e sonha com filhos lindos, dessa menina ninguém vai duvidar.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Um Beijo no Escuro
A gente se olhava no meio do breu, via somente o contorno, mas eu sabia que ele me olhava, que era pra mim sua atenção, mas ele manteve-se quieto, eu com medo não fui até ele, até o corpo dele. Era madrugada, mas continuávamos a rir juntos, conversar sobre qualquer coisa, somente para ainda um ouvir a voz do outro, pois ambos já tínhamos perdido o interesse no ato de falar, eu ao menos queria ser tocado, não ser ouvido, mas não podia, não devia fazer algo, então me satisfazia naquele instante em ser ouvido e ouvir.
Quando dois meninos se gostam, sempre alguém morre no final, foi o isso que eu aprendi nos filmes, o mais interessante que o conheci também no escuro e não podia vê-lo, mas podia o sentir tentando me olhar, me ver além da escuridão, acho que foi um momento de essência e seus encontros, onde toda e qualquer imagem foi considerada pequena e não tão significante.
Veio o primeiro toque do nada, entre suas mãos, ambos confusos e perdidos se tocaram ao mesmo tempo, a caricia que era na mão crio vida e seguiu, nisso o meu medo se instaurou, retraí, mas ele me deu tanta segurança, seus dedos pelo meu rosto, os meus nos peitos dele, então o beijo, no escuro instaurou-se o afeto, o beijo doce, destruindo o tabu do medo, da tristeza e da vergonha. Entre caricias e afeto eles caíram no sono, reconfortados pelo calor um do outro.
Quando dois meninos se gostam, sempre alguém morre no final, foi o isso que eu aprendi nos filmes, o mais interessante que o conheci também no escuro e não podia vê-lo, mas podia o sentir tentando me olhar, me ver além da escuridão, acho que foi um momento de essência e seus encontros, onde toda e qualquer imagem foi considerada pequena e não tão significante.
Veio o primeiro toque do nada, entre suas mãos, ambos confusos e perdidos se tocaram ao mesmo tempo, a caricia que era na mão crio vida e seguiu, nisso o meu medo se instaurou, retraí, mas ele me deu tanta segurança, seus dedos pelo meu rosto, os meus nos peitos dele, então o beijo, no escuro instaurou-se o afeto, o beijo doce, destruindo o tabu do medo, da tristeza e da vergonha. Entre caricias e afeto eles caíram no sono, reconfortados pelo calor um do outro.
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