segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Descompasso
Não negava que os dias viraram anos e não havia o reencontrado, nem mesmo no seu dia a dia memória dele vinha a sua mente, não mentiu quando disse que o amava, mas a vida segue um fluxo mais intenso que as águas de cascatas, ela leva de nós e nos cala, nos acostuma. Não era por medo ou desgosto que não se lembrava, era por descaso, vindo ao acaso. Não havia uma marcar suja de violência, ou uma interrupção externa, foi assim, foi indo e aos poucos foi. Lembrando agora aquela noite quente onde beberam tanto que dormiram rindo e tontos, no dia seguinte sabiam que se amavam.
Quando ela partiu e foi viver a vida, ele não disse adeus, nem mesmo tchau, acho que ele sentiu mais, mas também ela que partiu, com uma aflição enorme e toda coragem possível. Garota sabida sentiu no começo, mas com os dias que viraram anos teve uma vida tão repleta de vida que nada anterior parecia relevante. O tempo cura aqueles que a ele pedem auxilio, na verdade ela nem precisou pedir e a cura veio, veio por estar tranquila, que o fim é a certeza do começo e que se esvaírem com o tempo, inclusive o eu.
Um belo dia tomando um café ouviu a voz dele, soou com uma bofetada em sua cara, levantou correndo e o abraçou por trás. Ele retribuiu abraço sem olhar pra trás, eles sabiam reconhecer um ao outro com muito pouco, ela nem percebeu, mas ele chorou uma lagrima. Terminaram o café juntos, quando se despediram ela sentiu uma dor tão profunda, passou o resto dos dias lembrando dele e ele dela, mas nunca mais se viram.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Calada
Nada no seu corpo conseguia abstrair a sensação de calor, levando-a loucura da felicidade momentânea, presa num corpo espacial determinado pelas ondas da voz dele. Quanto tempo não via os tons laranja invadir de forma incomoda seus olhos, o por do sol é belo e agressivo e disso ela sabia.
Camuflada e atenta ao seu comportamento agradável e padrão, não parava de encarar Henrique, passa horas falando da vida com a cabeça nas alturas e ele participava, lembrava e sacudia-se para entender melhor. Isabel falou horas dos cabelos e a conversa foi super interessante, tão sabidos e eloquentes podiam falar de coisas melhores.
Tava lá toda serelepe, mesmo coberta pela sensação de indisposição que só quem viveu um dia de calor carioca vai entender, não sei se ele viu, não sei se reconheceu ou melhor, não reconheceu a nova criatura ali na sua frente, não era a mesma, mas falava e vivia no ritmo da outra. Era a mesma.
Como posso negar as surrealidades de uma mente inquieta que grita sem o toque de alucinógenos, saiu perplexa confusa e meio frustrada, mas em paz. Percebeu que as guerras são pedras em seu caminho de uma verdadeira felicidade, tudo tá bem, né? Sim, então pra que não manter assim, entendeu a hipocrisia fantástica de esconder os temores quando eles não geram mais nada que destruição.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Amor
Sentada na varanda ouvindo um velho vinil da Nina Simone, sentia-se tão prafrentex ao fazer isso no bairro nada glamoroso do Andaraí. Rita ouvia aquelas musicas, melancólicas e ao mesmo tempo quentes, pensando quando iria ser a sua vez. Nunca conheceu o amor, em tempos em que as paixões não chegam a conhecer a luz do sol e o ar da sobriedade, ouvir aquilo era angustiante.
Buscou em sua mente todos os homens que conhecera, na tentativa de dar a eles a chance de serem o grande amor de sua vida, mas nenhum parecia adequado, olha claramente seus defeitos e o tédio que a presença deles a causa. Levantou-se como um foguete, despiu-se e foi atrás de uma roupa linda e leve, para que pudesse fluir como o vento.
Passou pela porta de casa trancando-a rapidamente sem perda de tempo, não havia tempo a perder, sabia que nesse dia iria encontrar o amor de sua vida e caminhava sem olhar pra trás. Tinha a estratégia de encarar os homens nos olhos e ver o amor dentro deles, sabia que quando o visse não iria titubear e mais, sabia que o veria.
Começou seu plano, mas homens são ríspidos, nessa sociedade serem encarados por uma mulher os assustam e os deixam menos homens, ela via só ódio, desprezo e medo. Caminhava sem olhar pra trás já tinha passado o Estácio e ainda não tinha encontrado o amor, olhando todos os olhos em seu caminho só via coisas terríveis. Cansada, mas perseverante resolveu sentar num banco em frente ao Odeon, já eram 15 pras cinco.
Ao subir seus olhos tinha um rapaz próximo de sua idade olhando o letreiro, tirou o cabelo do rosto e olhou pra ele, ele olhou pra ela. Quando deu por si estava com o rosto a menos de 30 centímetros do rosto dele, avaliando minuciosamente os olhos dele. Ele não sabia o que fazer, por não saber a imitou e retribuiu a busca, alguns dizem que ele achou primeiro, mas ela viu, viu o amor. Beijou-o instintivamente e depois riu, ele retribuiu o riso e o beijo, como bobos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Navalha
Olhou no espelho e percebeu que não se identificava, aquelas formas não a representava, presa num corpo que não lhe cabia, levou 24 anos pra perceber que sua infelicidade era por causa disso, sou eu que não estou ali, no reflexo. Cada pulso de seu coração gritava pra partir seu algoz em mil pedaços, vergonha e angustia espalhas pela face da mulher, ela sentia-se assim, seu nome de bastimos era Pedro, como esse nome podia ser tão não representativo. Olhou pro seu corpo viu coisas que faltavam e coisas que sobravam, assim deitou no chão do banheiro e sonhou, sonhou com curvas, seios e vagina, seus cabelos seriam longos e seu rosto deveria ser felino, queria ser musa e diva.
Pobre menino, pensaram todos, depois de tão velho queria ser moça, diziam alguns, mas ela sabia que o processo demorara por temor, não por falta de certeza, mas não poderia mais nenhum dia ficar presa na sua prisão, não importam o que todos diziam a metáfora da prisão era sim algo de mais adequado pra descrever aquele corpo, aquele nome e aquela vida. Ouviu alguns por vezes a chamarem de viado, não era viado nenhum, era uma mulher, respeito ela queria.
Com a ajuda de deus e cirurgiões plásticos ela viu seu corpo mudar, viu seu membro sumir e dele nascer seus lábios, com tempo se amou, amou o outro se viu mulher, depois de muito tempo pro mundo Pedro virou Myllena. Me contaram outro dia que ela fez 29 anos, deu uma festa dançou a noite toda e que esta noiva, imagina vai casar de branco na igreja católica e sonha com filhos lindos, dessa menina ninguém vai duvidar.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Um Beijo no Escuro
A gente se olhava no meio do breu, via somente o contorno, mas eu sabia que ele me olhava, que era pra mim sua atenção, mas ele manteve-se quieto, eu com medo não fui até ele, até o corpo dele. Era madrugada, mas continuávamos a rir juntos, conversar sobre qualquer coisa, somente para ainda um ouvir a voz do outro, pois ambos já tínhamos perdido o interesse no ato de falar, eu ao menos queria ser tocado, não ser ouvido, mas não podia, não devia fazer algo, então me satisfazia naquele instante em ser ouvido e ouvir.
Quando dois meninos se gostam, sempre alguém morre no final, foi o isso que eu aprendi nos filmes, o mais interessante que o conheci também no escuro e não podia vê-lo, mas podia o sentir tentando me olhar, me ver além da escuridão, acho que foi um momento de essência e seus encontros, onde toda e qualquer imagem foi considerada pequena e não tão significante.
Veio o primeiro toque do nada, entre suas mãos, ambos confusos e perdidos se tocaram ao mesmo tempo, a caricia que era na mão crio vida e seguiu, nisso o meu medo se instaurou, retraí, mas ele me deu tanta segurança, seus dedos pelo meu rosto, os meus nos peitos dele, então o beijo, no escuro instaurou-se o afeto, o beijo doce, destruindo o tabu do medo, da tristeza e da vergonha. Entre caricias e afeto eles caíram no sono, reconfortados pelo calor um do outro.
Quando dois meninos se gostam, sempre alguém morre no final, foi o isso que eu aprendi nos filmes, o mais interessante que o conheci também no escuro e não podia vê-lo, mas podia o sentir tentando me olhar, me ver além da escuridão, acho que foi um momento de essência e seus encontros, onde toda e qualquer imagem foi considerada pequena e não tão significante.
Veio o primeiro toque do nada, entre suas mãos, ambos confusos e perdidos se tocaram ao mesmo tempo, a caricia que era na mão crio vida e seguiu, nisso o meu medo se instaurou, retraí, mas ele me deu tanta segurança, seus dedos pelo meu rosto, os meus nos peitos dele, então o beijo, no escuro instaurou-se o afeto, o beijo doce, destruindo o tabu do medo, da tristeza e da vergonha. Entre caricias e afeto eles caíram no sono, reconfortados pelo calor um do outro.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
canário
Acordou num estalo, abriu os olhos e jogou em um estante toda a sonolência fora, se desesperou por não reconhecer o lugar e nem as pessoas que estavam a sua volta, olhou pra si a blusa suja de vomito, só de calcinhas e uma camisinha usada grudada na perna esquerda, entrou em pânico e pensava “fiz de novo”. Ana era desse tipo de menina festeira, só com 18 anos cheirava cocaína e bebia vodka, que perdia a noção de quem era e tinha seu corpo usado por muitos e muitos rapazes, alguns diziam que pelo fato dela não conhecer o pai a tornara uma vadia sem freios, necessitada de atenção masculina. Olhou mais uma vez a sua volta e reconheceu um amigo, Eduardo era mesmo uma bixa nojenta e sem escrúpulos, tava deitado em cima da barriga de um cara sem calças com a cara virada pro pau dele e com rosto sujo de porra, ela riu e levantou, com uma única duvida, quem havia a comido.
Ana fumava três maços de cigarro por dia, por isso não conseguia ficar sem fumar muito tempo, perto de Eduardo tinha malboro vermelho, o cigarro que Ana não se dava bem, mas ela o pegou, acendeu um cigarro e foi mijar, sentou com no vaso, ficou até o cigarro ter fim, ao se limpar reparou que tinha sangue, pensou que pode ser alguma DST e não ligou, saiu e foi até espelho tinha, roxos por todo corpo, riu-se e pensou “noite divertida” foi até a sala do apartamento no 18 andar nas ruas de São Paulo, acendeu outro cigarro, as janelas daquele apartamento não tinham proteção, não tinham segurança, mas isso não a impediu de sentar-se na janela daquele prédio gigante a dois andares da cobertura, nisso ela reparou que onde ela estava sentada tinha poça de sangue, ela ficou catatônica por um segundo, mas logo entendeu ela estava perdendo o filho que não sabia que tinha, aquilo doeu tanto, tanto e que seus pensamentos voaram direto para o niilismo, nisso Eduardo entra na sala e eles se olharam e ele disse “não, bixa” e ela se inclinou para fora no apartamento voando direto pro chão e antes de 10 segundos seu corpo estava esmagado contra o asfalto.
Ana fumava três maços de cigarro por dia, por isso não conseguia ficar sem fumar muito tempo, perto de Eduardo tinha malboro vermelho, o cigarro que Ana não se dava bem, mas ela o pegou, acendeu um cigarro e foi mijar, sentou com no vaso, ficou até o cigarro ter fim, ao se limpar reparou que tinha sangue, pensou que pode ser alguma DST e não ligou, saiu e foi até espelho tinha, roxos por todo corpo, riu-se e pensou “noite divertida” foi até a sala do apartamento no 18 andar nas ruas de São Paulo, acendeu outro cigarro, as janelas daquele apartamento não tinham proteção, não tinham segurança, mas isso não a impediu de sentar-se na janela daquele prédio gigante a dois andares da cobertura, nisso ela reparou que onde ela estava sentada tinha poça de sangue, ela ficou catatônica por um segundo, mas logo entendeu ela estava perdendo o filho que não sabia que tinha, aquilo doeu tanto, tanto e que seus pensamentos voaram direto para o niilismo, nisso Eduardo entra na sala e eles se olharam e ele disse “não, bixa” e ela se inclinou para fora no apartamento voando direto pro chão e antes de 10 segundos seu corpo estava esmagado contra o asfalto.
Assinar:
Postagens (Atom)